
SOCIOLINGÜÍSTICA
Umha comunidade emprega normalmente um único código lingüístico que, para além da sua funçom comunicativa, serve de elemento caracterizador e autoidentificativo dessa comunidade, motivo polo que se costuma chamar o idioma que cumpre este papel Língua Nacional. O uso social de mais línguas num mesmo contexto devém umha duplicidade antieconómica, bem como umha agressom a um dos mais claros ingredientes do que chamamos património cultural dos povos.
A presença dessa segunda língua, certificada hoje em dia em tantos países do mundo, é umha das mais claras manifestaçons da existência de um processo de assimilaçom cultural de umha comunidade por outra. A tensom entre a imposiçom da língua alheia e a resistência da língua nacional produz o que chamamos Conflito Lingüístico. O estudo da situaçom social das línguas pode, portanto, servir-nos para evidenciar o grau de desigualdade e dependência entre umhas comunidades nacionais e outras.
Neste tipo de situaçons, o estado colonizador conta com o poder e utiliza-o para impor a sua política lingüística e cultural, que geralmente se inscreve num mais amplo projecto político que parte da negaçom de qualquer direito colectivo da comunidade agredida a existir como comunidade diferenciada. Dependendo do momento histórico, o estado poderá proibir, silenciar ou reprimir as aspiraçons de existência da língua dominada (como aconteceu com o galego e a Galiza no franquismo). Ou poderá optar por efectivar a sua política com os mesmos fins estratégicos, mas pseudodemocraticamente. É o contexto actual no nosso país, caracterizado polo reconhecimento formal de que o galego existe, plasmado no seu estatuto de cooficialidade. O que antes era umha política de negaçom nua e crua dos direitos lingüísticos colectivos, hoje torna-se promoçom e cuidado das "outras línguas oficiais", com o olhar posto num suposto Bilingüismo Harmónico, convivência em pé de igualdade de ambas as línguas, a própria e a alheia.
Já vimos alguns conceitos básicos
da sociolingüística como o de conflito lingüístico.
Vejamos outros que nos ajudem a perceber melhor este tipo de contextos.
O Bilingüismo é um conceito adscrito ao plano individual, consistente no conhecimento de duas línguas por parte de um mesmo falante. Resulta, como tal, nom só realizável, mas também recomendável e enriquecedor. Deve-se, pois, defender o conhecimento de quantos mais idiomas melhor entre as pessoas, ao lado do respeito da territorialidade lingüística ou ecolingüismo, quer dizer, do respeito ao direito de cada povo a se desenvolver culturalmente sem ingerências alheias, com o seu idioma como único veículo de comunicaçom social interna. Este é o motivo de que, no terreno da normalizaçom de um idioma minorizado, as leis devam partir de que as línguas som ante tudo instrumentos de uso social, promovendo-as em funçom desta natureza intrínseca que as caracteriza.
No entanto, o conceito de bilingüismo tem sido apropriado polos defensores da assimilaçom pseudodemocrática, e posto ao serviço da sua política lingüística. Assim, fomentou-se a confusom entre o plano individual e o colectivo, e nasceu o bilingüismo harmónico como suposto fim último da sua política que, paradoxalmente, unicamente se ocupa da dimensom individual no reconhecimento legal do idioma submetido, chegando a fazer de aquelas pessoas que optam polo galego autênticos objectores de consciência, como atinadamente definira Carvalho Calero. Com efeito, o galego é hoje objecto de direito individual, enquanto o espanhol mantém entre nós o estatus de necessidade colectiva. Esta diferenciaçom leva o rumo da política lingüística endereçada ao monolingüismo social em espanhol, mas considera "razoavelmente" os direitos individuais dos galegofalantes. Por isso é que a definimos acima como pseudodemocrática, o qual nom lhe resta umha pisca de efectividade, palpável à vista dos seus resultados, confirmados nos inquéritos realizados polas próprias instituiçons oficiais em forma de queda espectacular da percentagem de galegofalantes nas geraçons mais novas, ao lado, isso sim, de um maior conhecimento teórico do idioma.
Nom esqueçamos, aliás, que os mesmos que consideram os galegos afortunados por contarmos com dous idiomas de uso social, atacam com veemência a imposiçom do inglês na comunidade lingüística de Porto Rico, hispanofalante. É o mesmo paradoxo que caracteriza o estado francês quando defende o carácter francófono do povo quebequês face ao colonizador canadiano enquanto nem reconhece formalmente a existência de idiomas como o bretom, o basco, o ocitano ou o catalám, entre outros, dentro do seu estado. Além disso, se tam positivo fosse o bilingüismo social, por quê nom haveria de ser implantado no conjunto do estado espanhol, deixando assim de discriminar os que unicamente tenhem o espanhol como língua de uso social?
Com efeito, a coexistência social de duas
línguas resulta, como mínimo, antieconómica,
já que a procura de igualdade obrigaria ao uso de ambas
em documentos, anúncios, discursos, exames e quaisquer
outras manifestaçons públicas das instituiçons.
Semelhante utopia nom se cumpre, como era de esperar, e no seu
lugar veu-se dando umha complementariedade na repartiçom
de usos entre galego e espanhol conhecida polo nome de diglossia.
Contudo,o processo de substituiçom é dinámico
e o avanço do espanhol pode fazer com que a repartiçom
de usos (diglossia) seja superada pola invasom funcional do espanhol,
como veremos no próximo tema.
Nas seguintes linhas, vamos ver os critérios que nos permitem definir umha língua como normal ou como desnormalizada. Para isso, repassamos os ámbitos funcionais em que todo idioma deve mover-se para poder ser considerado normal, contrastando o grau de presença do nosso em cada um deles.
A Funçom de Identidade fai referência à articulaçom do pensamento no indivíduo. É, nas situaçons de minorizaçom, o derradeiro reduto que resta ao utente de um idioma, quando a situaçom externa nom deixa já lugar ao seu uso, circunstáncia extrema vivida, por exemplo, pola derradeira falante da língua dalmática, desaparecida em finais do século XIX.
A Funçom Familiar é a desenvolvida pola língua no seio da família: este é o ámbito que mantivo vivo o galego durante séculos, como sólido alicerce de umha cultura nacional oprimida, resistindo-se a desaparecer. Os dados dos inquéritos sociolingüísticos publicados dim-nos que estes alicerces estám a ser liquidados pola acçom corrosiva da escolarizaçom espanholizante ou a penetraçom nos lares galaicos da transculturizaçom por via televisiva ...
A Funçom Laboral abrange as relaçons no mundo do trabalho, onde hoje mantém vigência o esquema diglóssico tantas vezes descrito na maioria dos falantes, enquanto cresce a percentagem de falantes monolíngües em espanhol. De facto, continua em demasiadas empresas privadas a proibiçom de usar o galego no contacto com o público se nom é como resposta a quem também o utiliza. Aliás, nom faltam exemplos de problemas mesmo no atendimento ao público em instituiçons públicas. Nom existe qualquer planificaçom a este respeito por parte dos responsáveis políticos, que pudesse incentivar o uso do galego nas empresas ou instituiçons.
Na Funçom Local (de contacto entre as pessoas no contorno social imediato e quotidiano), a autoidentificaçom em língua espanhola aumenta, o qual é interpretado por alguns comentaristas jornalísticos como resultado de umha livre eleiçom, «a pesar de la imposición del gallego». Tal explicaçom suporia qualquer superioridade inata do espanhol, que atrai para o seu domínio falantes de galego fartos de que os obriguem a falar sempre umha só língua. Na verdade, a explicaçom é bem mais material e menos dependente de decisons ou gostos pessoais. Ninguém abandona o uso da sua língua se nom é através de um processo de assimilaçom colectiva.
Ascendendo na jerarquia funcional, chegamos à Funçom Institucional, quer dizer, de comunicaçom entre os diferentes estamentos da comunidade lingüística. Neste ámbito é que se acha o santuário do bilingüismo harmónico, máscara ocultadora de umha perfeitamente calculada diversificaçom de usos entre galego e espanhol. O galego é segunda língua dos mundos administrativo, judicial, político,..., é a letra em itálico dos documentos públicos, formalmente hibridada com o espanhol e funcionalmente congelada nuns usos redundantes a respeito deste, dando a impressom de ser um «colgalho» ornamental, subordinado à realmente efectiva língua do estado.
A Funçom Cultural é a que possibilita o acesso às ciências e à arte na língua em questom. É, na Galiza oficial, o ámbito das «duas matérias» no ensino secundário, dos grandiosos e solenes «dias das Letras Galegas», dos chamados de atençom contra os minoritários sectores lusistas, do «cántame un pasodoble galego». Casos como o acontecido num colégio de Ribeira, onde a Conselharia impujo ao professorado a inclusom de livros de texto em espanhol, confirmam para quê é que o governo autonómico legisla: para dotar-se de armas legais e frear as possibilidades de avanço do galego ali onde os Conselhos Escolares pretendam dar-lhe protagonismo.
Enfim, dentro da já secular pugna entre espanhol e galego por ocupar as diversas funçons nacionais, tudo indica que o espanhol está a ganhar a partida, com sério perigo de marginalizaçom definitiva da nossa própria língua própria.
Com efeito, o campo de batalha entre espanhol e galego vai-se aproximando cada vez mais das funçons-reduto: a Familiar e a de Identidade, tradicionalmente a salvo da espanholizaçom. Som os últimos ámbitos em que o galego mantivo um espaço de uso na sociedade, o que lhe permite conservar umha certa vitalidade, embora esta seja precária. Umha vez perdidos estes espaços funcionais, o número de falantes de um idioma e outro inverte-se em termos absolutos -como os inquéritos começam a evidenciar. Neste contexto, o Director Geral de Política Lingüística chegou a afirmar que a queda do número de galegofalantes nom é preocupante, pois aumenta o conhecimento teórico do galego. Na verdade, de pouco serve que todos saibamos muito galego se socialmente se reduz até desaparecer o lugar reservado para o seu uso. Poderíamos deste modo chegar à situaçom que se dá com idiomas como o latim, cujo conhecimento é tam prestigiado como inútil na comunicaçom quotidiana, ao ser apenas língua de transmissom cultural.
Nos últimos anos, verifica-se umha progressom funcional da língua invasora que pom mesmo em questom a vigência do esquema diglóssico que nos últimos trinta anos serviu para explicar o caso galego, pois que na gente nova o espanhol ocupa todas as funçons de uso social, e o galego é apenas objecto de conhecimento académico e uso ocasional.
Convém, para além do mais, ter em conta que aos defensores da «primazia constitucional» do espanhol só lhes resta contar com o argumento de sermos minoria os utentes de galego para atingir a coarctada definitiva e acometer assim a derradeira fase do processo de assimilaçom. De facto, este é um dos argumentos dos defensores dos privilégios do espanhol em Euskal Herria («o espanhol é a língua da maioria e o euskara é falado por uns poucos, que querem impô-lo ao resto», dim).
Nesse processo, tem umha grande responsabilidade o governo galego e a sua Direcçom Geral de Política Lingüística, por serem quem planificam em funçom de uns objectivos cada vez mais clarificados polos resultados dos seus próprios inquéritos.
Mas nom esqueçamos que, ao lado da acçom institucional, nas situaçons de conflito lingüístico tem umha importáncia vital a acçom colectiva nom institucional, e é esse o espaço que temos de ocupar para formar, informar e sensibilizar cada vez mais a populaçom galega e pressionar até mudar a política institucional em matéria lingüística.
Dentro da recuperaçom do idioma tem também
grande importáncia a acçom individual em
favor do galego. É fundamental, por exemplo, o comportamento
monolíngüe das pessoas conscientizadas, nas relaçons
pessoais, com a administraçom, ... Como exemplo, enfim,
para tantas outras que, tendo o galego como língua própria,
se manifestam diglossicamente nas suas relaçons sociais,
como conseqüência do modelo de comportamento promovido
desde o poder.
Em estreita relaçom com as funçons sociais da língua, acham-se os grupos sociolingüísticos, que incluem os tipos de falantes presentes na sociedade relativamente ao uso e conhecimento das duas línguas em conflito. A maior ou menor implantaçom de uns ou outros determina o desenvolvimento das funçons sociais revisadas no tema anterior.
Ainda que existam diferentes propostas classificatórias, pensamos que a seguinte pode ilustrar suficientemente o caso galego:
O processo óptimo para normalizar o galego é o que amplia o número de nativos cultivados e o de adultos nativizados, em detrimento dos outros dous grupos.
O processo desnormalizador que sofre a Galiza potenciou historicamente o grupo de nativos primários e o de adultos secundários. Os primeiros eram a maioria rural (galegofalantes sem formaçom explícita na própria língua) e os segundos a maioria urbana formada em espanhol e falantes primários dessa língua.
Actualmente, o grupo maioritário é o de espanholfalantes primários completados culturalmente em espanhol (grupo 4º) e que adquirem o galego como segunda língua de transmissom cultural, sem que se acompanhe o seu relativo conhecimento de umha necessidade social da mesma que leve a usá-la. Ao mesmo tempo, diminui o grupo de nativos primários, que historicamente mantivo o galego com vida natural. Num futuro nom muito longe, pode reduzir-se a língua com vida «cultural», mas sem uso social significativo.
Resumindo: no caso galego, caminhamos no sentido contrário ao da normalizaçom, mas o processo é conduzido com a suficiente inteligência para que muitos galegos e galegas julguem o contrário, polo aparente acesso do idioma do país a novos ámbitos de uso social, como o ensino, e pola permissividade no que a usos sociais di respeito.
Portanto, se quigermos recuperar o idioma, temos que inverter o processo: primeiro, compactar o grupo de galegofalantes completos (grupos 1 e 2) e a seguir incidir socialmente para atrair os grupos nom completados em galego para aumentar o número e incidência dos primeiros. Quer dizer, os nativos primários devem completar-se culturalmente em galego e os adultos secundários devem adquirir o uso do galego como ferramenta comunicativa para todas as ocasions.
O ideal seria que um governo galego guiasse o processo, sustentado na colaboraçom social. No entanto, o governo galego actual e o estado espanhol estám à frente do processo de eliminaçom do galego, polo que devem ser os galegos e galegas comprometidos com a língua quem o guiem. Um labor, julgamos, no que devemos reconhecer que até hoje estamos a fracassar os diversos sectores implicados.
Com efeito, a principal crítica que deve fazer-se à sociedade galega é o pouco compromisso que demonstra com a língua. Nom mereceria acaso a existência de umha autêntica organizaçom popular de massas que trabalhasse em todos os ámbitos pola normalizaçom?
Terminamos com umha reflexom sobre o futuro que nos
pode aguardar como povo. Sendo a língua o nosso principal
património colectivo, convém que tenhamos em conta
que, se a deixarmos morrer, nom mereceremos continuar existindo
como povo diferenciado; de facto, com o galego, o mais provável
é que também morra a Galiza.
O desacordo na escolha de um padrom para o galego
Existem diferentes sintomas que certificam a existência de um conflito lingüístico numha sociedade e, portanto, da posiçom inferior da língua nacional a respeito da alheia. Já vimos alguns nos capítulos precedentes, e agora vamos ver um outro nom menos comum em contextos como o galego.
A necessidade de elaborar umha variedade estándar da língua minorizada cria amiúde tensons na comunidade, ao existirem diferentes visons de por onde é que deve caminhar esta. Noruega, Flandres, Alsácia, Córsega, ou Moldávia, por só citar alguns casos, vivêrom ou ainda vivem conflitos mais ou menos semelhantes ao que hoje existe entre nós. E em todos estes casos, como no nosso, a presença da administraçom alheia e a defesa dos seus interesses tivo e tem grande importáncia na criaçom e manutençom do conflito, que se nom se resolve actua como mais um pejamento a empecer os avanços da língua minorizada.
Descendo a analisar o caso galego, pode-se estabelecer um paralelo entre o que acontece no que se costuma chamar Normalizaçom do estatus e o que denominanos Normalizaçom do Corpus, dous aspectos inseparáveis na Normalizaçom lingüística. No primeiro dos planos, há umha disputa entre os defensores de um suposto bilingüismo harmónico e quem defende o monolingüismo social em galego. No segundo plano, o mesmo poder político que promociona o bilingüismo harmónico defende a independência do galego face ao português, exercendo assim de separatistas lingüísticos. Na verdade, e de acordo com a tabela comparativa de abaixo, vemos como o separatismo nom afasta o galego apenas do português, mas também do resto de línguas románicas, mantendo-o no entanto bem próximo do espanhol no aspecto gráfico em signos característicos deste como o simbólico ñ. No lado oposto, a tradiçom galeguista apostou sempre por umha substancial reintegraçom do galego no seu ámbito genética e historicamente natural, julgando que é do espanhol que deve manter a independência e que, de virar as costas ao mundo lusófono, o galego teria muito a perder e muito pouco a ganhar, para além do inútil trabalho de reinvençom de umha língua em permanente perigo de crioulizaçom (processo polo que a mistura de duas línguas dá lugar a umha terceira).
| LATIM | GALEGO- PORTUG. | CATALÁM | FRANCÊS | INGLÊS | ESPANHOL | GALEGO ILG-RAG | |
| G | GERMANIA BIOLOGIA | Germánia Biologia | Germània Biologia | Germanie Biologie | Germany Biology | Germania Biología | Xermania Bioloxía |
| J | IUDEUS IESUS | Judeu Jesus | Jueu Jesus | Juif Jésus | Jew Jesus | Judeo Jesús | Xudeu Xesús |
| SS | MISSA MASSA | Missa Massa | Missa Massa | Messe Masse | Mass Mass | Misa Masa | Misa Masa |
| Ç | FORTIA CUMINITIARE | Força Começar | Força Començar | Force Commencer | Force - | Fuerza Comenzar | Forza Comezar |
| QU | SEQUENTIA QUAESTIO | Seqüência Questom | Seqüència qüestió | Séquence Question | Sequence Question | Secuencia Cuestión | Secuencia Cuestión |
Dentro da primeira visom do assunto, encontramos as Normas Ortográficas e Morfológicas do Idioma Galego (ILG-RAG), impostas por decreto do governo de A.P. (direita espanhola) no ano 1982 e desde aquela apoiadas pola Junta da Galiza.
Partilhando no plano filosófico a teoria reintegracionista, existem três propostas de estandardizaçom que mantenhem diferenças entre si, basicamente no aspecto gráfico (nom no léxico e poucas no morfológico): As Normas da AS-PG, ou mínimos reintegracionistas, que mantenhem as grafias espanholas. Hoje estám em progressivo desuso ao serem abandonadas pola própria entidade promotora em favor das ILG-RAG; as Normas da A.Ga.L,ou máximos reintegracionistas, que recuperam a ortografia patrimonial galega, actualizando-a e buscando a confluência com as outras variantes do galego no mundo, se bem mantendo as particularidades galegas; e as Normas do Acordo assinado polos países lusófonos para unificar quase totalmente os padrons de todos eles. Neste manual apostamos polo padrom galego da A.Ga.L.
Quanto aos princípios que alicerçam a proposta reintegracionista, estes podem ser resumidos em dous fundamentais:
Nom devemos interpretar que a discrepáncia neste tema seja causa da situaçom que sofre o galego, como alguns perversamente querem fazer-nos pensar, já que na verdade é umha manifestaçom da falta de normalidade do galego, conseqüência do maltrato recebido secularmente. Nom confundamos, portanto, causas e conseqüências, e incluamos a normalizaçom do corpus entre os objectivos a conquistar, junto dos avanços na consecuçom de novos ámbitos de uso social.
Igual que outras naçons dérom reconduzido o processo de estandardizaçom para o caminho da reintegraçom (o caso de Flandres é bem recente), também o galego pode e deve recuperar a sua forma legítima. É umha necessidade que entre todas e todos faremos realidade.
Como síntese das noçons sociolingüísticas repassadas neste capítulo e nos anteriores, formulamos os que consideramos objectivos básicos para a recuperaçom do galego:
Reintegracionismo Lingüístico, entendido como critério fundamental na normalizaçom do corpus, e pensando nom apenas no passado da língua, mas também no seu futuro.
Monolingüismo Social, ou recuperaçom de todos
os ámbitos de uso social para o galego, fazendo dele umha
necessidade colectiva e consagrando-o como o grande símbolo
na nossa autoidentificaçom como povo. Este é o fim
que deve procurar umha autêntica política normalizadora
do seu estátus.
A prática lingüística: fala e escrita
A existência de um idioma numha sociedade normalizada manifesta-se, como estamos vendo, por duas vias complementares: a oral e a escrita. Ambas as duas som actualmente imprescindíveis e a ausência de manifestaçons nalgumha delas indica umha carência funcional importante e desnormalizadora para essa língua.
O galego mantivo-se sumido na oralidade forçada durante séculos, o qual se converteria, à hora de tentar dar passos na sua normalizaçom, num pejamento do que ainda nom se deu livrado, e que hoje se manifesta em forma de conflito normativo, ao que já nos temos referido.
É importante diferenciarmos perfeitamente ambas as manifestaçons, a oral e a escrita, nom confundindo conceitos pertencentes a um plano ou a outro.
Os elementos sonoros da linguagem conformam um sistema que se manifesta na sua própria oralidade. Esta é prévia à tentativa de levá-la ao papel a meio de umha série de signos gráficos convencionais que conformam a língua escrita. Estes signos convencionais nom guardam em si qualquer relaçom com o elemento sonoro que representam, polo que nom existem sistemas gráficos realmente identificados com os sistemas fónicos correspondentes. Dito por outras palavras: umha letra nom se corresponde naturalmente com o som que materializa no papel (por vezes som duas letras as que representam umha unidade fónica: <ch> em fecho), senom só na medida em que a comunidade lingüística decide dar-lhe esse valor, como poderia ter-lhe dado outro qualquer. De facto, umha mesma letra pode representar sons bem diferentes em cada idioma que a usar: O <j> de Joám, John, Juan, ... Igual que um mesmo som pode estar representado por letras diversas num mesmo idioma (o fonema bilabial sonoro, como <b>, <v> em galego, ou o fonema velar surdo, como <j>, <g> em espanhol), ou em dous idiomas (o fonema palatal surdo do jornal galego e da shadow inglesa).
Visto assim, poderíamos pensar que é indiferente
como grafemos a nossa língua e mesmo poderíamos
optar por reduzir ao máximo o número de grafemas,
como se fijo ao fixar a norma escrita do euskara. No entanto,
a própria existência do conflito normativo deixa
alviscar que a importáncia da ortografia tem qualquer outra
dimensom que lhe confere um grande protagonismo no processo normalizador.
Com efeito, a ortografia vem sendo a roupagem que fai visível
um idioma, imprimindo-lhe carácter e situando-o no mundo
das línguas escritas. É por isso que nom resulta
indiferente optarmos por situar o nosso idioma no ámbito
ortográfico do espanhol do que irmaná-lo com português
e brasileiro, devido às implicaçons simbólicas
-e práticas- de umha e outra possibilidades. Se a adopçom
da escrita espanholizante pode facilitar o aprendizado -razom
pedagógica amiúde aduzida polos seus defensores-,
nom deixa de supor umha clara satelizaçom do galego ao
tomar-se o espanhol como modelo prévio de referência.
No lado oposto, a escolha reintegracionista implica a recuperaçom
da escrita histórica galega, como património do
nosso povo ao que nom devemos renunciar, e como referente que
nos situa à vista do mundo no ámbito do tronco lingüístico
que o nosso país criou, mil anos atrás, e que hoje
se estende polos cinco continentes, com tudo o que esta realidade
oferece ao futuro do galego.
A necessidade de um padrom fonético para o galego
O uso do alfabeto histórico-etimológico galego, partilhado com portugueses, brasileiros e restantes povos aos que foi imposto o galego-português, nom implica, é claro, recusarmos a nossa particular pronúncia. É o mesmo que se passa no Espanhol, com a mesma escrita em Espanha que na Argentina ou Cuba, mas com correspondências fonéticas diferenciadas entre si, ou no espanhol de Castela e o de Andaluzia que, postos a levar as dissemelhanças ao papel, admitiriam códigos escritos bem diferentes. Seguramente, se os galegos mantivéssemos com portugueses e brasileiros os mesmos relacionamentos fluídos que mantenhem castelhanos e andaluzes ou, em geral, espanhóis e hispanoamericanos entre si, as argumentaçons «separatistas» esvairiam-se em favor da inevitável irmandade entre povos que partilham um ingrediente cultural tam importante como é o idioma. Talvez por isso o poder se tenha preocupado por manter-nos de costas viradas, fomentando entre os galegos como mínimo a indiferença, quando nom o desprezo, polos irmaos do Sul.
Do mesmo modo que brasileiros e portugueses tenhem diferentes padrons fonéticos para um código escrito substancialmente comum, também nós devemos contar com umha pronúncia padrom própria dentro do mundo de fala galego-portuguesa.
Actualmente, podemos supor -sendo muito bem pensados- que nom existe qualquer proposta que os responsáveis de política lingüística podam tratar de socializar desde as escolas ou os meios de comunicaçom (rádio e televisom), e que poda servir de referente estándar ou culto para todos os galegos e galegas.
Porém, de acordo com a realidade radiofónica e televisiva, tudo fai pensar que existe umha peneira de locutores em funçom da fonética e sotaque dos candidatos, de forma que som seleccionados só aqueles que nom soarem «muito galegos», algo que mesmo tem sido denunciado por lingüistas participantes nalgumha prova de selecçom. Com efeito, semelha que se procure um sotaque «neutro» e «bem soante», tomando como neutralidade eufónica a dicçom espanhola estándar.
A situaçom do plano fonético e entonacional começa a ser grave porque, apesar de ser a última capa, a mais interiorizada e difícil de apagar na identidade lingüística de um povo, tudo indica que algo disto está a acontecer nos falantes mais novos do nosso idioma, que começam a assimilar a identidade fónica espanhola, insistentemente insuflada através, de novo, de um ensino cada vez mais efectivo, e uns meios de comunicaçom a cuja presença e influência abafante é difícil abstrair-se, também no que aos hábitos lingüísticos respeita.
A quê responde, se nom, a crescente indistinçom no timbre das vogais de grau médio, que leva a empobrecer o nosso sistema vocálico, ou a confluência da pronúncia palatal dos grafemas x, j, g, com a alveolar do s? Existem outros casos sintomáticos do que dizemos, como a substituiçom da curva tonal galega pola espanhola, ou mesmo a renúncia a um traço tam caracterizador do nosso idioma como o sesseio, nas zonas em que este é sistemático.
Nom haverá, neste caso, quem culpe o conflito
normativo da situaçom, já que as discrepáncias
nom afectam, praticamente, ao que deve ser ortofonia padrom, e,
ainda existindo um acordo substancial, nom existe umha política
conducente a estender o seu uso como referente social unificador
num aspecto tam importante para a conservaçom da autenticidade
do galego. Esta falta de promoçom da correcta dicçom
em favor de um híbrido entre «galego normativo»
e «pronúncia neutra» = espanhola,
semelha confirmar qual é a vontade dos responsáveis
de umha política lingüística que, a pouco que
analisarmos, comprovamos que sim existe, embora nom tenha os fins
que di defender.
Outras normas do galego-português
A língua galega, ou galego-portuguesa, é falada por mais de 200 milhons de pessoas nos cinco continentes, levada polo imperialismo português de maneira semelhante ao espanhol. Nom é, com certeza, motivo de orgulho sabermos que a nossa língua cumpriu noutros lugares o mesmo papel glotofágico («papa-línguas») que nós denunciamos que cumpre o espanhol na Galiza. Sendo críticos com esse papel, nom podemos deixar de reconhecer que a potência demográfica, cultural e económica que hoje representa o mundo lusófono, beneficia a revitalizaçom do galego a pouco que ponhamos qualquer cousa da nossa parte.
Umha língua tam extensa, falada e escrita em tantos países, vê dificultada a sua unificaçom formal por motivos evidentes. Assim acontece com o inglês, com importantes diferenças entre o estadounidense, o da Inglaterra e o australiano; ou com o francês, diverso segundo estivermos no Quebeque, em França, ou no cantom francófono da Suíça. O mesmo acontece com o espanhol: apresenta notáveis diferenças entre os distintos países de fala hispana, nom raro levadas à escrita padrom de cada um deles.
Quanto ao galego-português, Brasil e Portugal (por citar os casos mais conhecidos), tenhem normas diferenciadas. Também na Galiza, como estamos vendo nestas páginas, existe umha norma específica, dentro da geral identidade entre todas elas. Esta norma responde à personalidade galega do português falado na nossa terra e, sem pretendermos entrar na discussom de se convém ou nom a unificaçom total de padrons galego-portugueses, achamos que a especificidade contribui para fortalecer a nossa consciência nacional e autoestima lingüística. Outra utilidade indirecta da norma galega é a de fazermos ver em Portugal que nom é que queiramos sem mais fazer nossa a «sua» língua, senom que a da Galiza e a de Portugal som variantes do mesmo idioma. Contudo, estes argumentos som sem dúvida discutíveis e nom faltará quem poda apresentar outros igualmente válidos no sentido da unificaçom total com a norma portuguesa.
Durante o século XX, tem havido distintas tentativas de unificaçom das variantes dos distintos países de fala galego-portuguesa. O último acordo foi atingido em 1992, com participaçom galega. Porém, como nas ocasions anteriores, este acordo nom foi respeitado e hoje continuam tendo vigência as normas particulares de cada estado.
Resumimos a seguir sumariamente as particularidades do português e o brasileiro, a respeito do galego.
Câmara, âmbito, lactância.
Galego: Cámara, ámbito, lactáncia.
Coração, sermões, clã.
Galego: Coraçom, sermons, clam.
Morfologia
Galego: polo, pola.
Galego: umha(s) (velar).
Galego: vim, comim.
Galego: farei-no, beijaria-te.
Galego: fago, tivo, dixo, perdo, podo, mido,...
Léxico
Português e brasileiro som em geral ponto de referência inescusável na restauraçom do vocabulário galego, tam deturpado por influência espanhola. Todavia, o galego conserva em ocasions léxico que em Portugal ou no Brasil foi substituído por estrangeirismos desnecessários. Nesses casos, como noutros, o galego tem muito a dizer e pode achegar a sua riqueza ao mundo lusófono. Referimo-nos, por exemplo, a formas como penha, repolho, pequeno almoço, jantar (à noite),...; tomados polo português do espanhol, francês, ou outros idiomas, quando o galego conserva as patrimoniais pena, repolo, almorço, cear,..
Um último apontamento: ao lermos textos portugueses e brasileiros, nom é preciso imitar a sua fonética, já que a fonética galega, como parte do património lingüístico galego-português, é perfeitamente legítima.